Estrelas

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Um pouquinho de Ferreira Gullar



"No mundo há muitas armadilhas e o que é armadilha pode ser refúgio e o que é refúgio pode ser armadilha Tua janela por exemplo aberta para o céu e uma estrela a te dizer que o homem é nada ou a manhã espumando na praia a bater antes de Cabral, antes de Tróia No mundo há muitas armadilhas e muitas bocas a te dizer que a vida é pouca que a vida é louca E por que não a Bomba? te perguntam. Por que não a Bomba para acabar com tudo, já que a vida é louca? Contudo, olhas o teu filho, o bichinho que não sabe que afoito se entranha à vida e quer a vida e busca o sol, a bola, fascinado vê o avião e indaga e indaga A vida é pouca a vida é louca mas não há senão ela. E não te mataste, essa é a verdade. Estás preso à vida como numa jaula. Estamos todos presos nesta jaula que alguém foi o primeiro a ver de fora e nos dizer: é azul. E já o sabíamos, tanto que não te mataste e não vais te matar e agüentarás até o fim. O certo é que nesta jaula há os que têm e os que não têm há os que têm tanto que sozinhos poderiam alimentar a cidade e os que não têm nem para o almoço de hoje A estrela mente o mar sofisma. De fato, o homem está preso à vida e precisa viver o homem tem fome e precisa comer o homem tem filhos e precisa criá-los No mundo há muitas armadilhas e é preciso quebrá-las."

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Alucine-se


Nunca foi minha intenção ter um blog para servir como referência, seja lá do que for. Esse não é o meu objetivo aqui, espaço onde apenas transcrevo minhas conversas nos quartos da Raquel, com a Raquel. Gosto de me reler vez ou outra, dos comentários que deixam, de saber que agradei, e também gostaria de saber que não. Sou minha mais fiel seguidora (rs). E quando sigo algum blog, é porque o seu conteúdo, ou algum dos seus textos me fez rir, pensar, chorar, refletir, enfim, me acrescentou, me influenciou de alguma forma (e deve ser assim com todo mundo, né mesmo? ). Daí eu criar o link para que essa minha memória tão distraída não o perca de vista.

Adoro o Alucinações Amorosas, que sempre teve um cantinho especial aqui em casa. E com a devida permissão do queridíssimo autor, vou rabiscar a parede desse cantinho com um dos seus poemas. Admiro o talento que o Marcello tem de usar as palavras para exalar poesia. Sim, seus poemas exalam. Têm cheiro de felicidade, de saudade, de dor, de amor, de gozo do corpo no amor. As emoções respiram e suspiram a cada verso lido, fazendo a pele arrepiar, os olhos marejarem, o coração transbordar. Espelham o que é comum em almas bonitas, aguçam sentidos não descobertos, nos enxergam e fazem companhia quando nos sentimos invisíveis. Alucinam.



Ando procurando


Ando procurando uma metade
deve ser sincera,
autêntica para ser amada
que seja alma, corpo e coração.

Que seja perfeitamente imperfeita
que seja infantil em sonhos
e adulta em atitude.

Ando procurando momentos de felicidade
que complete a minha metade,
que esteja próxima sem titubear em encantar
fascinar em cada gesto,
sem receio dessa proximidade.

Que seja crédula em amores impossíveis,
que caminhe sem medo no vazio
que captura a amargura,
e descobre as cerimônias mais espetaculares.

Metade mulher,
metade musa.

Ando procurando em um olhar triste
um verso,
uma harmonia onde possa despertar e dançar
fragmentos de um pequeno poema
para começar a amar.

Sou poeta, imperfeito ser humano
virtualmente perfeito,
viciado em aromas,
em terremotos emocionais,
com frequentes calafrios nas noites de sexo
onde objetos amados ganham vida,
e as mãos açoitam as folhas de papel.

Ando procurando a dolorosa sensação
de estar atado à outra pessoa,
a entrega total de si mesmo,
esse tipo de amor extinto que insiste
em pelejar contra as cinzas da efemeridade.

Minha metade é mulher,
curiosa,
manipuladora das regras,
com belas histórias e
carícias amorosas.

Ando procurando um outro olhar
que em seu próprio sentido é indecifrável,
misturando palavras certas e atitudes poéticas
como um caldeirão de uma fantástica alquimia.

Minha metade é quase invisível
um espectro de luz,
miragem de amor
lembranças de amores idealizados,
de encontros,
de beijos nunca consumados.

Ando procurando essa metade
de curvas imperfeitas,
vontade plena, que vive na palavra
e sobrevive na dança alheia dos meus sonhos.

Minha metade é dona de um sorriso
que convida,
provoca e ordena.

Por Marcello Lopes
Do Alucinações Amorosas


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011



" Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como ´estou contente outra vez´."

Caio Fernando Abreu







Cena e canção mais lindas de Moulin Rouge

sábado, 29 de janeiro de 2011

"A thing of beauty is a joy for ever"

Uma alegria para sempre

"As coisas que não conseguem ser

olvidadas continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo do sempre onde as
datas não datam. Só no mundo do nunca
existem lápides... Que importa se –
depois de tudo – tenha "ela" partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado. E abrem-se no teu
sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
deves à ingrata criatura...
A thing of beauty is a joy for ever
disse, há cento e muitos anos, um poeta
inglês que não conseguiu morrer."

Mario Quintana

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Brilho de uma paixão


" SÃO PAULO (Reuters) - Em alguns dos melhores filmes da neozelandesa Jane Campion, a arte é mais do que uma forma de expressão, é a forma como personagens transpõem barreiras físicas ou emocionais.

No mais recente filme da diretora, "Brilho de uma Paixão", está o poeta inglês do século 19 John Keats (Ben Whishaw, de "O Perfume"), o último dos românticos, que morreu jovem, aos 25 anos e teve um único amor na vida, Fanny Brawne (Abbie Cornish, de "Um Bom Ano").

Um amor tão poético quanto etéreo e platônico. Seria muito fácil transformar a história do casal num amontoado de clichês, com um poeta romântico morrendo no final sem que a paixão realmente se consumasse."


Não posso acrescentar muito mais do que os críticos que elogiaram o filme, ou não, fizeram, até porque passei boa parte da sessão tentando me livrar de tentáculos pegajosos de um polvo nojento que deixei cair na minha rede...Com certeza perdi muito dos diálogos - poesia pura, e da fotografia perfeita, das cenas belíssimas de uma Inglaterra que eu não imaginava pudesse ter existido. Atores ótimos, cineasta premiada... (ihhhh, olha eu tirando onda !!! Favor desconsiderar qualquer comentário meu, porque não entendo porra nenhuma de filmes. Porque passei boa parte da minha vida assistindo a blockbusters , de preferência cartoons. E foda-se quem achar que isso é algum defeito. E se for... foda-se de novo ).

Só quero falar de uma cena, uma única cena, a que me angustia toda vez que invade os meus seis sentidos. Fanny recebe a notícia de que seu Keats está morto. É comovente, como o seria qualquer perda nesse sentido. Mas não, não foi uma cena clichê. E , ao invés de me transbordar em lágrimas , fiquei ali, imóvel, paralisada. Queria chorar, não conseguia. Queria falar, não tinha o que. Também eu não conseguia respirar. O ar lhe (nos) faltou aos pulmões, muita dor...

Interpretação brilhante. Difícil descrever. Até hoje, quando me vem qualquer referência ao filme, onde quer que eu esteja, feliz ou nem tanto, fico quietinha, sentindo uma angustia, um vazio imenso que preenche o meu peito e quase me sufoca. Um misto de inveja, medo, auto piedade. Não inveja do sofrimento, mas do sentimento que o gerou. 'Aquilo' fez todos os meus 'graaaandes' amores parecerem tão pequenos, tão distantes... Sinto medo. Medo de que exista mesmo o tal, o único. Medo de passar pela vida sem conhecê-lo. Sem merecê-lo.