Estrelas

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma xícara de carinho, por favor...



- Desculpe-me, estava lhe observando. É que seu nariz está tão vermelho, a senhora está tão congestionada, não está nem conseguindo comer o seu creme de aspargos. Posso dar uma sugestão?? É que eu também sou barman e tenho uma receita muito boa, infalível...

Foi desse jeito que um dos 'maitres' daquele restaurante se aproximou da nossa mesa, bem na hora em que eu colocava um lenço de papel no nariz para conter o trigésimo sétimo espirro dos últimos quarenta e nove minutos. Sem que eu me atrevesse a tirar o lenço de papel do nariz, acenei com a cabeça para que ele continuasse.

- Como eu ia dizendo, sou barman e tenho uma receita que é infalível. São dois shots de suco puro de limão, misturados a sprite, ou soda limonada. Eu garanto, em menos de dez minutos a senhora vai se sentir muito melhor.

Eu mal conseguia entender o que ele dizia, os olhos ardendo, a dor de cabeça, as crianças brigando porque uma tinha ficado com mais batata frita que a outra, o creme de aspargos que eu não conseguia sentir o cheiro, as palavras ininterruptas do maitre sobre os benefícios do limão, e o nariz que não parava de escorrer. Agradeci e disse que ele poderia trazer o tal milagre.

Alguns minutos após, voltava ele com um copo desses de litroemeio, cheio de gelo, uma latinha de sprite, e dois copinhos daqueles de servir cachaça com suco puro de limão, os tais 'shots' de limão. Ele colocou metade do refri no copo e um dos shots de suco de limão (ou o suco de limão de um dos shots???), deu uma balançadinha e colocou o copo de volta à mesa. E ficou parado. Olhando para o copo. E eu também. Levantei a cabeça e olhei pra ele, que continuava a olhar para o copo. Olhei para as crianças, que ainda brigavam pelas batatas fritas. Olhei para o pai delas, sentado ao meu lado direito, que devorava o seu jantar, sem tirar os olhos do prato (vai que a comida foge?), alheio a qualquer movimento ao seu redor. Olhei para o copo. Olhei para o maitre novamente.

- Você não vai colocar o outro shot de suco de limâo?

- Agora não. Este está pronto. Pode beber. De uma vez só.

Este??? Então tem mais um??? Pensei. Cinco dedos de refri, DE LIMÃO, um de suco, DE LIMÃO ... Respirei fundo e...glub, glub, glub, ahhhhhhhhhhh,,,,meus olhos lacrimejaram, arrepios até na alma...

- Forte, né???

- Agora vamos à outra metade.

O ritual se repetiu. Shot de limão no sprite. Mexedinha no copo. Maitre olhando fixamente para o copo. E loira também.

- Pronto. Você vai melhorar, vamos, coragem...

A primeira dose ainda estava brincando de gangorra aqui dentro. Desce pro estômago, sobe ao esôfago, estômago, esôfago, estômago, esôfago... Respirei fundo de novo. O maitre se afastou, mas senti que ele ficou me olhando 'dilonge'. Consegui beber o restante da receita. É, melhorei, bastante. Claro, uma dose daquelas de vitamina C levanta até elefante. Comecei a respirar melhor.

O maitre se aproximou novamente:

- Como está? Já estou vendo que o seu nariz está melhor! Viu como funciona??!!!

- Ah, claro, foi providencial ..

Não, não tive coragem - nem chance - de dizer a ele que, antes do jantar chegar, eu já havia tomado um comprimido de trimedal. Consegui terminar o meu creme de aspargos, que adoooooooooro, mesmo me sentindo uma bexiga de gás. só que cheia d'água. Olhei para o lado discretamente, e lá estava ele, meu maitremédico, nos observando, sorrindo feliz. As gentilezas continuaram. E foi amável com as crianças. E brincou com as sobremesas. E brincou com o pai das crianças que, se não estivesse tão distraído com a sua própria barriga, com certeza teria dito que fui cantada ou que o funcionário estava querendo impressionar o chefe, ou que ele não fez mais que a sua obrigação.

Não vejo mal algum em 'mostrar serviço' quando se precisa garantir um salário para o sustento da família no final do mês. E definitivamente aquele maitre fez mais que a sua obrigação. Foi observador e mais que gentil. Gosto muito de acreditar que há pessoas que se preocupam com o bem estar de outros. Gosto dos que não perdem a oportunidade de ajudar. Isso conforta a alma.

Tá bom, tá bom. Confesso. Estava carente, afinal não é todo dia que ninguém percebe que você está péssima, que ninguém pergunta se você quer mesmo jantar, que ninguém diz 'saúde' para os seus trinta e tantos espirros... Aquela atenção do maitre foi mesmo providencial, vestiu como um pret'a porter para uma loira invisível.

Não posso negar que a hipótese da cantada não me passou pela cabeça, mas considerando as circunstâncias, nem de longe seria a pior. Além de ter usado uma 'abordagem', digamos, eficiente, ele foi de um atrevimento só, pois não está escrito na minha testa que eu e o pai das crianças somos apenas amigos, e nem tão bons assim. Gosto de homem corajoso, de iniciativa, e um pouco de atrevimento não faz mal a ninguém. Além do mais, moreno, olhos verdes, com um sorrisão daqueles, se foi uma cantada, me deu 'mó moral' , o que também aquece a alma, o coração e outras partes do corpo...(rs)






quinta-feira, 28 de abril de 2011

Correio

Algum lugar, um dia/um mês/ um ano qualquer.

Oi,

Acho que deve ser assim que todas começam: 'Como vai? Tudo bem? Espero que sim."
Então, fui bem? Deixa pra lá. Apenas entenda que se o faço, é por não aceitar desperdícios, de energia, de tempo, de vida. Agora chega, né? Desculpe-me a intro-missão, e vamos ao que interessa.

Ela sabe que você procura e consegue entendê-la. Então, tente esquecer essa sua culpa e se esforce mais um pouquinho. Vou te contar tudo. Ela te esperou. O email, o telefonema. Eles não chegaram. Veio a noite, e o dilúvio, e essa noite do dilúvio foi uma espécie de catarse da sua solidão, da solidão dela. Mas e daí ? Teria sido diferente se você estivesse no banco do carona ou em casa, esperando-a para jantar??? A chuva teria sido menos intensa???? Ela não teria batido com o carro??? Não. Nada teria sido diferente. A chuva, o acidente, nem o estar sozinha, a não ser o fato dela precisar de um motivo a mais para querer se sentir viva. Esse motivo, o 'a mais', ela não tinha. Não tem. Eu sei que o 'nuncaterei' é forte, soa definitivo - e de definitivo, sabemos o que ??? Mas foi por aí que a coisa se deu. Descobrir ... a deixou irremediavelmente só. Sentiu tanta pena de si mesma que não sabia se chovia mais lá fora ou dentro do seu carro. A vontade de te ligar ficou insana. Nunca houve responsáveis ou culpados. Ela precisava que você soubesse disso. Que jamais sentiu ódio de você, que jamais quis ou pretendeu o seu mal. A uma, porque ama você; a duas porque desejar o mal de alguém está além da sua capacidade (até que ela tenta, mas não consegue). Ela sabe que ousou te intimidar, acho até que conseguiu ameaçar a sua paz. Foram palavras duras para verdades tão dela. Talvez não seja o caso de pedir perdão, mas compreensão. Tem tanta certeza de que o que viveram é único, verdadeiro, palpável, que não consegue pensar na possibilidade de estar enganada. Não está. Você está. A certeza vai além de saber que você a ama, vai até o 'é a ela quem você ama!' Pronto. Você precisava ouvir. Delírios??? Não. Ela pôde saber, muito antes e muito além de cada sorriso seu, cada olhar, palavras, no seu silêncio, nos seus sussurros, nos seus gozos. Mas de que adianta??? Você não o sabe assim. Ainda não. E é com esse futuro que ela precisa lidar. Quanto tempo levará??? Sem noção. Pode ser uma vida inteira???? Pode. Nada a fazer, a não ser tentar impedir que esse amor que ela sente se contamine com ciúmes, raiva, inveja, que precisa dominar. Por isso ela se afastou. Não por você ou por sua causa, mas por ele, para mantê-lo vivo. O amor. Sempre ele. É assim que ela é. Acerta errando. Mas dessa vez ela sabe que vai ter que aprender a contar com a sua própria companhia. Até quando, isso você pode responder.

Sem mais,

.


P. S.: não, ela não é um pingo, é o seu ponto, e vírgula, de exclamação, de interrogação, os dois, e todos juntos. E o final também.

terça-feira, 26 de abril de 2011