Estrelas

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eu andava e andava e lá estava ela, sorrindo. Mas eu não queria. Saía dos lugares, entrava por becos, visitava a rua da minha infância, e, lá estava ela, de novo, dizendo:
-Vem agora, querida.
Mas eu não queria. E ela continuava sorrindo, e o sorriso me dizia que não adiantava fugir. Ela estava ali , mas não me assustava. Apenas não queria.
- Ela não é feia.
Penso alto.
- Não. É bonita. Não usa capa preta. Nem foice. Veja, são flores o que ela tem na mão.
 Cansada, a vi estendendo os braços para mim. 
- Acabou, meu bem.
 Quero chorar, mas não sinto vontade. Sem forças,  desisto. Fecho os olhos e vou com ela.
- Quanta gente...e eu , aqui, com esse decote!
Não havia nuvens branquinhas, e nem chamas ardentes. Era um local de trabalho. Todos com suas respectivas funções. Em silêncio. Havia muito colorido. No que se guardava, no que se arrumava. Em silêncio. Todos na sua rotina. Muito trabalho. Mas esse decote... 
-Aqui pode namorar???
Alguém ri e me avisa:
-Não se preocupe. Em pouco tempo isso não fará mais parte das suas lembranças. Venha, aqui é o seu posto.Você vai trabalhar aqui.
Como não fará mais parte das minhas lembranças???? Namorar é tão bom...não se esquece as coisas boas da vida.
- Exatamente. Mas você não está mais lá, lembra???
Mas é pra lembrar ou esquecer???
- Olha, o Marcelo!!! Eu conheço o Marcelo!!!!
Marcelo passa por mim mas não parece me reconhecer. Alguém me pergunta:
- Vocês são amigos??? Se importaria de dividir o quarto com ele??
Que estranho...aqui tem trabalho em série, brinquedos, quartos... mas não se pode namorar!
- Acho que não vai dar certo.  Ele gosta de mim! Já quis me namorar...Se eu ficar no mesmo quarto...isso não vai dar certo...
E o alguém ri, e delicada e silenciosamente diz:
- Isso não vai fazer mais parte de você...
Puta que pariu, penso baixinho.
- Morrer é muito ruim. Não quero não, nem dá mais pra namorar...

Eu juro que não uso drogas. Acordei, com a imagem daquela mulher bonita na minha cabeça (ela que não se atreva a aparecer na minha frente tão cedo), sem saber se aquilo tinha sido um pesadelo, uma revelação das minhas carências sexuais, uma visão divina (ou profana, vai saber...), ou uma cena de uma comédia qualquer. 

Eu hein...Coisas da Lôra...
                                
                               ...Ah,  moça bonita, nem vem que eu não vou!!!!




quarta-feira, 27 de junho de 2012

      Holofotes me incomodam. Não é que eu não goste de elogios e aplausos - adoro, mas acho que preciso menos deles. Acordar de manhã com alegria no coração é para aqueles que têm talento para a tristeza. A minha, essa 'boba' , sempre esteve aqui e sabe conviver bem com a dor, são quase amigas de infância. De vez em quando me decepciono com as pessoas...ai essas malditas expectativas!!!! Esqueço que cada um é o que é, e oferece aquilo que tem e pode dar. E se nessa equação o saldo for negativo, ou você chuta, meu bem, ou aceita, sem reclamar, porque fórmulas têm aos montes, espalhadas pelos facebooks, twitters, blogs e tumblers da vida. Cada um 'posta' a sua, que, de compartilhe 





em compartilhe, acaba virando verdade. E são mesmo. Pegue emprestado, é 0800. Só aviso que as minhas mudam com o vento, porque absoluta e inflexível, até que me provem o contrário, só a morte. É claro que acredito no eterno, só que às vezes ele pode durar um segundo. Como dizia Milllor Fernandes, 'a vida começa quando a gente compreende que ela não dura muito'. Então, se temos o hoje, o amanhã passa a ser mero detalhe. Essa sou eu e isso é a minha vida (isso lhe parece familiar??? Rs) E a quem possa interessar, não me faço de feliz. Sou feliz mesmo. Vai ver que é de tanto repetir isso. Vai saber...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

"Deficiente é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive,
sem ter consciência de que é dono do seu destino.
Louco é quem não procura ser feliz com o que possui.
Cego é aquele que não vê seu próximo morrer de frio,
de fome, de miséria.
E só têm olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
Surdo é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um
amigo, ou o apelo de um irmão.
Pois está sempre apressado para o trabalho e
quer garantir seus tostões no fim do mês.
Mudo é aquele que não consegue falar o que sente e
se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
Paralítico é quem não consegue andar na direção
daqueles que precisam de sua ajuda.
Diabético é quem não consegue ser doce.
Anão é quem não sabe deixar o amor crescer.
E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois
Miseráveis são todos que não conseguem falar com Deus.
A amizade é um amor que nunca morre."

Mario Quintana

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ela é dessas. Conversa sozinha, canta errado, dança todos os sons no mesmo ritmo. Dá risadas dos seus tombos, faz palhaçadas, e acha graça mesmo quando é sem graça, e não perde a pose! Briga com os objetos quando esbarra neles, dá bom dia e tchau até para poste, quando está sem lunetas, mas posso te garantir que ela enxerga muito além das próprias lentes. Faaaaala pelos cotovelos, e pelo olhar, pelo andar, pelas mãos, pelo sorriso... mas seu silêncio pesa mais que um Aurélio e um Houaiss juntos. Há quem diga que ela é linda, e ela realmente 'se acha', mas não por sua iris verde ou por ter prometido aos filhos que eles teriam uma mãe gostoooooosa (rs), mas simplesmente por conta desse amor imenso que tem pela vida, amor que chega a enjoar, amor que ela não consegue 'gastar', que a faz sentir tudo e todos como criança, mesmo tendo que pensar como adulto. Não liga para rótulos (não muito...), não quer ser mais uma nas estatísticas (pelo menos, tenta), e nem liga para o que falam (mentira...às vezes liga sim). É doida??? Sei lá...mas se for, viva a insanidade!!!! De verdade, tudo o que quer é poder viver muito, e aprender , e não ter vergonha de ser feliz. Síndrome de Gonzaguinha, fazer o que??? Os defeitos e derrotas?? Shhhhhh, depois eu conto... é que hoje é dia do seu aniversário e eu quero ser a primeira a fazer isso:
PARABÉNS, RAQUEL CRISTINA DOS SANTOS JACOUB!!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Compartilhando...

Achei esse texto muito legal...


Namore uma garota que lê

Namore uma garota que gasta seu dinheiro em livros, em vez de roupas. Ela também tem problemas com o espaço do armário, mas é só porque tem livros demais. Namore uma garota que tem uma lista de livros que quer ler e que possui seu cartão de biblioteca desde os doze anos.

Encontre uma garota que lê. Você sabe que ela lê porque ela sempre vai ter um livro não lido na bolsa. Ela é aquela que olha amorosamente para as prateleiras da livraria, a única que surta (ainda que em silêncio) quando encontra o livro que quer. Você está vendo uma garota estranha cheirar as páginas de um livro antigo em um sebo? Essa é a leitora. Nunca resiste a cheirar as páginas, especialmente quando ficaram amarelas.

Ela é a garota que lê enquanto espera em um Café na rua. Se você espiar sua xícara, verá que a espuma do leite ainda flutua por sobre a bebida, porque ela está absorta. Perdida em um mundo criador pelo autor. Sente-se. Se quiser ela pode vê-lo de relance, porque a maior parte das garotas que leem não gostam de ser interrompidas. Pergunte se ela está gostando do livro.

Compre para ela outra xícara de café. Diga o que realmente pensa sobre o Murakami. Descubra se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entenda que, se ela diz que compreendeu o Ulisses de James Joyce, é só para parecer inteligente. Pergunte se ela gosta ou gostaria de ser a Alice.

É fácil namorar uma garota que lê. Ofereça livros no aniversário dela, no Natal e em comemorações de namoro. Ofereça o dom das palavras na poesia, na música. Ofereça Neruda, Sexton Pound, cummings. Deixe que ela saiba que você entende que as palavras são amor. Entenda que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade mas, juro por Deus, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco como seu livro favorito. E se ela conseguir não será por sua causa.

É que ela tem que arriscar, de alguma forma.
Minta. Se ela compreender sintaxe, vai perceber a sua necessidade de mentir. Por trás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. E isto nunca será o fim do mundo.

Trate de desiludi-la. Porque uma garota que lê sabe que o fracasso leva sempre ao clímax. Essas garotas sabem que todas as coisas chegam ao fim. E que sempre se pode escrever uma continuação. E que você pode começar outra vez e de novo, e continuar a ser o herói. E que na vida é preciso haver um vilão ou dois.

Por que ter medo de tudo o que você não é? As garotas que leem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Exceto as da série Crepúsculo.

Se você encontrar uma garota que leia, é melhor mantê-la por perto. Quando encontrá-la acordada às duas da manhã, chorando e apertando um livro contra o peito, prepare uma xícara de chá e abrace-a. Você pode perdê-la por um par de horas, mas ela sempre vai voltar para você. E falará como se as personagens do livro fossem reais – até porque, durante algum tempo, são mesmo.

Você tem de se declarar a ela em um balão de ar quente. Ou durante um show de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Ou pelo Skype.

Você vai sorrir tanto que acabará por se perguntar por que é que o seu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Vocês escreverão a história das suas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos mais estranhos ainda. Ela vai apresentar os seus filhos ao Gato do Chapéu [Cat in the Hat] e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos de suas velhices, e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto você sacode a neve das botas.

Namore uma garota que lê porque você merece. Merece uma garota que pode te dar a vida mais colorida que você puder imaginar. Se você só puder oferecer-lhe monotonia, horas requentadas e propostas meia-boca, então estará melhor sozinho. Mas se quiser o mundo, e outros mundos além, namore uma garota que lê.

Ou, melhor ainda, namore uma garota que escreve.

Texto original: Date a girl who reads – Rosemary Urquico

Tradução e adaptação – Gabriela Ventura

domingo, 23 de outubro de 2011

Espanando a poeira

Não costumo reler o que escrevo, geralmente porque não gosto do que leio e fico com vontade de modificar ou deletar o texto. E mesmo sabendo que isso seria um direito meu, o de fazer o que bem entender aqui no meu blog, entendo que, a partir do momento que você se propõe a publicar o que quer que seja, esse oquequerqueseja sai um pouco da esfera da sua propriedade, deixando de ser só seu. Ou seja, na cabeça torta desta que vos escreve, modificar ou deletar algo já publicado funciona como um furto qualificado...

Bom, dia desses caí de paraquedas num texto antigo e, pasmem, ainda concordo com cada ponto e cada vírgula lá pontuados. Tá, o texto nem é tão antigo assim, só tem um pouco mais de um aninho, mas me deu muita vontade de postá-lo novamente. Assim eu dou uma espanada na poeira que estava nesse meu canto aqui...Aí vai:


Gosto de ser honesta. Gosto de ter bom caráter. Gosto de ser justa. Gosto de não fazer ' mal a quase ninguém' . Gosto de saber que minha família me ama. Gosto da minha cultura mediana. Gosto do passado. Faltou oportunidade. Gosto do presente. Falta tempo. Gosto de lugares bonitos, gosto mais de pessoas bonitas, de almas bonitas. Também tenho uma. Gosto de música, gosto de dançar, gosto de filmes, mais de ir ao cinema. Gosto de teatro também, de beber um pouquinho e de comer um tanto além. Gosto de perfume, de cheiro de roupa nova, de barulho de sapato novo. Gosto de cheiro de homem cheiroso. Gosto de dinheiro, gosto de moda, de me sentir confortável . Gosto mais de viajar, de conhecer lugares novos. Gosto de café da manhã de hotel. Gosto de motel. Gosto de ser inteligente, o suficiente. Gosto do meu português honesto. Gosto do meu blog, meu diário. Gosto de ser sensível, de chorar à toa, de rir à toa . Gosto de ser bonita, gosto de me cuidar. Gosto de me cuidar, gosto de ser bonita. Tanto faz. De tudo isso, gosto mais que tudo de amar, de ver meus olhos brilharem, de ouvir minha boca convidar e de fazer meu corpo saciar. Gosto de cama. Gosto muito de cama, de sofá, de tapete, e de chão. Gosto de ser pessoa comum, na multidão. Gosto de ser especial. Gosto mais de ser única. Gosto mais ainda de ser a única.

domingo, 14 de agosto de 2011

Saudades suas


" Tá vendo, Seu Antonio, eu dou o dinheiro e ela (a mãe) é quem ganha o beijo!"

(risos, muitos risos)

"Ele quer um beijo????" Pensei, assustada com aquela possibilidade. Afinal, ele sempre foi tão austero, sempre guardou os raros momentos de afeto para o que chamava de datas adequadas, como se carinho tivesse hora e local marcado para se dar ou receber...Mas enfim, eu sabia que tanta austeridade escondia apenas a sua incapacidade de demonstrar amor através de qualquer contato físico. Não era sua culpa. De ninguém. Não lhe fora ensinado. Havia outras formas do seu amor se manifestar. Cuidados, responsabilidades, sacrifícios, doação, generosidade. Faltava o toque, mas não os olhares de aprovação, por vezes substituídos por aquele sorriso torto e sincero. Dizem que a perfeição, por não poder ser alcançada, é imperfeita. Bobagem. Pra mim, a imperfeição é que é perfeita.

Dei-lhe o beijo, e ganhei um abraço apertado. Mas nos abraçamos de forma diferente. O beijo e o abraço seriam os últimos. Não que isso fosse fazer alguma diferença na falta que viria, mas era como se ele soubesse que estava se despedindo. Eu não estava lá, no seu último ato, mas tive a minha última cena com ele. Poucas horas depois, um descuido faria com que aquele dia nem tão comum deixasse de sê-lo. Tantos mil volts modificaram a minha vida irremediavelmente.

Rostos conhecidos, olhares de comoção na minha direção, parecia que a cidade em peso estava no pronto socorro. Foi quando ouvi aquela maldita frase: "Morreu trabalhando". Que ousadia aquele vizinho fofoqueiro filho da puta querer ser o primeiro a me dar a notícia. Eu o odiei por muito tempo, aquele idiota, tadinho. É, fui a última a saber, tantas horas depois. Eu, que lhe era a favorita. O que se seguiu não difere em nada das demais tragédias alheias. Lágrimas, lamentações, desmaios, flores, dor. A dor que não passa. Nunca. Fica anestesiada. Recebe apelidos, como saudade. A sua, a dele, a minha, a que me inspira agora. Cada um com sua forma de lidar com ela, a certeza unica que nos é permitido ter.

Só conseguimos voltar para casa alguns dias depois de tudo. Alguém me entregou uma sacola de supermercado e nela estava a camisa que ele vestia na hora do acidente no terraço, um prêmio de consolo por ter sido a última a quem lembraram de avisar. Uma pequena mancha de sangue na gola, rasgos abaixo da pala, em tiras. Eu a queimei em frente à nossa casa. Não sei se sei, mas sei que ele estava ali, naquele momento. Como também esteve no meu quarto, enquanto eu pensava dormir, naquela primeira noite da sua ausência. Eu o vi, eu o toquei, e ainda posso sentir a sua barba 'por fazer' na minha mão e ouvi-lo dizer com o seu olhar, 'shhhhhhhh' , fique bem, estou aqui". Desde então percebi que sonhos, pelo menos os meus, são muito mais que...sonhos. Como toda ausência, a dele nos custou muito. Mas, quando não há nada a fazer, tudo passa. Porque o tempo, já sabemos, não para. Fica apenas o que o coração determina, e fica vivo, e pulsa junto com ele, mesmo que faça doer. Mas fica.

Estava em Penedo dia desses quando encontrei Cacildinha, e me lembrei daquela tarde em que, chegando em casa, avistei de longe sua kombi na calçada. Suas Kombis, amadas tal como amantes, suas paixões. Escorpiniano é foda. Pelo menos àquelas (as kombis) ele era fiel. A última era toda bege. Ainda é. Danei a correr, hipnotizada, sem pensar nem respirar, coração na mão, até chegar nela, até tocar nela, como num abraço, com rosto, com lágrimas. Quis encontrá-lo sentado à mesa, contando a féria do dia, ou me esperando para que a sua filha dileta aqui passasse a sua camisa, ou cuidasse daqueles pés tão castigados pelo cimento das massas que ajudava a revolver, para cobrir as lajes protetoras do seu lar, ou vestir os tijolos que se erguiam em paredes que nunca paravam de subir. Ou, ainda, ouvindo-o discursar sobre as hoje 'bolas cheias' e 'bolas murchas' dos jogadores do seu time paixão, meu também. Eu o entendia, falávamos a mesma língua. Nossa, como sou feliz por tê-lo tido em minha vida...

Ontem ouvi de um personagem qualquer que o amor é frágil. Concordei no instante, mas logo pensei, o amor não supera tudo? Não resiste até mesmo à morte? Ou será apenas esse romantismo recalcado que nos embaça? Não, o amor certamente é forte. Se é frágil, não é amor. Matemático. Simples. Quem dera. Pra que saber? Poder senti-lo é o que deveria importar. Seja por uma vida inteira. Seja num espaço desse tempo inventado, que nos desafia e tem a exata importância que damos. E se quando o sentimos, queremos possuí-lo, é por medo de aceitar que naõ existe o pra sempre, mas somente o até que... É isso o que dói.


Eu não podia deixar a Cacildinha, orfã, na vitrine daquela loja...
Ela não ficou linda na minha sala???




Foi mesmo uma pena não ter passado mais tempo com meu pai, mas me faz bem imaginar que teríamos sido muito felizes. É assim que mantenho as pessoas que estão tão longe sempre perto de mim...



segunda-feira, 30 de maio de 2011

E não é????


"Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como 'estou contente outra vez' "

Caio F. Abreu.






quinta-feira, 26 de maio de 2011

Original ou Cópia Fiel?






Palavras postadas no site FFFFOUND! Mesmo não sendo minhas, estão lá para serem lidas, criticadas, copiadas, tra-du-zi-das, mas DÊ os devidos créditos, mesmo aos anônimos!!!!! Afinal, você também é um escritor!!!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Uma xícara de carinho, por favor...



- Desculpe-me, estava lhe observando. É que seu nariz está tão vermelho, a senhora está tão congestionada, não está nem conseguindo comer o seu creme de aspargos. Posso dar uma sugestão?? É que eu também sou barman e tenho uma receita muito boa, infalível...

Foi desse jeito que um dos 'maitres' daquele restaurante se aproximou da nossa mesa, bem na hora em que eu colocava um lenço de papel no nariz para conter o trigésimo sétimo espirro dos últimos quarenta e nove minutos. Sem que eu me atrevesse a tirar o lenço de papel do nariz, acenei com a cabeça para que ele continuasse.

- Como eu ia dizendo, sou barman e tenho uma receita que é infalível. São dois shots de suco puro de limão, misturados a sprite, ou soda limonada. Eu garanto, em menos de dez minutos a senhora vai se sentir muito melhor.

Eu mal conseguia entender o que ele dizia, os olhos ardendo, a dor de cabeça, as crianças brigando porque uma tinha ficado com mais batata frita que a outra, o creme de aspargos que eu não conseguia sentir o cheiro, as palavras ininterruptas do maitre sobre os benefícios do limão, e o nariz que não parava de escorrer. Agradeci e disse que ele poderia trazer o tal milagre.

Alguns minutos após, voltava ele com um copo desses de litroemeio, cheio de gelo, uma latinha de sprite, e dois copinhos daqueles de servir cachaça com suco puro de limão, os tais 'shots' de limão. Ele colocou metade do refri no copo e um dos shots de suco de limão (ou o suco de limão de um dos shots???), deu uma balançadinha e colocou o copo de volta à mesa. E ficou parado. Olhando para o copo. E eu também. Levantei a cabeça e olhei pra ele, que continuava a olhar para o copo. Olhei para as crianças, que ainda brigavam pelas batatas fritas. Olhei para o pai delas, sentado ao meu lado direito, que devorava o seu jantar, sem tirar os olhos do prato (vai que a comida foge?), alheio a qualquer movimento ao seu redor. Olhei para o copo. Olhei para o maitre novamente.

- Você não vai colocar o outro shot de suco de limâo?

- Agora não. Este está pronto. Pode beber. De uma vez só.

Este??? Então tem mais um??? Pensei. Cinco dedos de refri, DE LIMÃO, um de suco, DE LIMÃO ... Respirei fundo e...glub, glub, glub, ahhhhhhhhhhh,,,,meus olhos lacrimejaram, arrepios até na alma...

- Forte, né???

- Agora vamos à outra metade.

O ritual se repetiu. Shot de limão no sprite. Mexedinha no copo. Maitre olhando fixamente para o copo. E loira também.

- Pronto. Você vai melhorar, vamos, coragem...

A primeira dose ainda estava brincando de gangorra aqui dentro. Desce pro estômago, sobe ao esôfago, estômago, esôfago, estômago, esôfago... Respirei fundo de novo. O maitre se afastou, mas senti que ele ficou me olhando 'dilonge'. Consegui beber o restante da receita. É, melhorei, bastante. Claro, uma dose daquelas de vitamina C levanta até elefante. Comecei a respirar melhor.

O maitre se aproximou novamente:

- Como está? Já estou vendo que o seu nariz está melhor! Viu como funciona??!!!

- Ah, claro, foi providencial ..

Não, não tive coragem - nem chance - de dizer a ele que, antes do jantar chegar, eu já havia tomado um comprimido de trimedal. Consegui terminar o meu creme de aspargos, que adoooooooooro, mesmo me sentindo uma bexiga de gás. só que cheia d'água. Olhei para o lado discretamente, e lá estava ele, meu maitremédico, nos observando, sorrindo feliz. As gentilezas continuaram. E foi amável com as crianças. E brincou com as sobremesas. E brincou com o pai das crianças que, se não estivesse tão distraído com a sua própria barriga, com certeza teria dito que fui cantada ou que o funcionário estava querendo impressionar o chefe, ou que ele não fez mais que a sua obrigação.

Não vejo mal algum em 'mostrar serviço' quando se precisa garantir um salário para o sustento da família no final do mês. E definitivamente aquele maitre fez mais que a sua obrigação. Foi observador e mais que gentil. Gosto muito de acreditar que há pessoas que se preocupam com o bem estar de outros. Gosto dos que não perdem a oportunidade de ajudar. Isso conforta a alma.

Tá bom, tá bom. Confesso. Estava carente, afinal não é todo dia que ninguém percebe que você está péssima, que ninguém pergunta se você quer mesmo jantar, que ninguém diz 'saúde' para os seus trinta e tantos espirros... Aquela atenção do maitre foi mesmo providencial, vestiu como um pret'a porter para uma loira invisível.

Não posso negar que a hipótese da cantada não me passou pela cabeça, mas considerando as circunstâncias, nem de longe seria a pior. Além de ter usado uma 'abordagem', digamos, eficiente, ele foi de um atrevimento só, pois não está escrito na minha testa que eu e o pai das crianças somos apenas amigos, e nem tão bons assim. Gosto de homem corajoso, de iniciativa, e um pouco de atrevimento não faz mal a ninguém. Além do mais, moreno, olhos verdes, com um sorrisão daqueles, se foi uma cantada, me deu 'mó moral' , o que também aquece a alma, o coração e outras partes do corpo...(rs)






quinta-feira, 28 de abril de 2011

Correio

Algum lugar, um dia/um mês/ um ano qualquer.

Oi,

Acho que deve ser assim que todas começam: 'Como vai? Tudo bem? Espero que sim."
Então, fui bem? Deixa pra lá. Apenas entenda que se o faço, é por não aceitar desperdícios, de energia, de tempo, de vida. Agora chega, né? Desculpe-me a intro-missão, e vamos ao que interessa.

Ela sabe que você procura e consegue entendê-la. Então, tente esquecer essa sua culpa e se esforce mais um pouquinho. Vou te contar tudo. Ela te esperou. O email, o telefonema. Eles não chegaram. Veio a noite, e o dilúvio, e essa noite do dilúvio foi uma espécie de catarse da sua solidão, da solidão dela. Mas e daí ? Teria sido diferente se você estivesse no banco do carona ou em casa, esperando-a para jantar??? A chuva teria sido menos intensa???? Ela não teria batido com o carro??? Não. Nada teria sido diferente. A chuva, o acidente, nem o estar sozinha, a não ser o fato dela precisar de um motivo a mais para querer se sentir viva. Esse motivo, o 'a mais', ela não tinha. Não tem. Eu sei que o 'nuncaterei' é forte, soa definitivo - e de definitivo, sabemos o que ??? Mas foi por aí que a coisa se deu. Descobrir ... a deixou irremediavelmente só. Sentiu tanta pena de si mesma que não sabia se chovia mais lá fora ou dentro do seu carro. A vontade de te ligar ficou insana. Nunca houve responsáveis ou culpados. Ela precisava que você soubesse disso. Que jamais sentiu ódio de você, que jamais quis ou pretendeu o seu mal. A uma, porque ama você; a duas porque desejar o mal de alguém está além da sua capacidade (até que ela tenta, mas não consegue). Ela sabe que ousou te intimidar, acho até que conseguiu ameaçar a sua paz. Foram palavras duras para verdades tão dela. Talvez não seja o caso de pedir perdão, mas compreensão. Tem tanta certeza de que o que viveram é único, verdadeiro, palpável, que não consegue pensar na possibilidade de estar enganada. Não está. Você está. A certeza vai além de saber que você a ama, vai até o 'é a ela quem você ama!' Pronto. Você precisava ouvir. Delírios??? Não. Ela pôde saber, muito antes e muito além de cada sorriso seu, cada olhar, palavras, no seu silêncio, nos seus sussurros, nos seus gozos. Mas de que adianta??? Você não o sabe assim. Ainda não. E é com esse futuro que ela precisa lidar. Quanto tempo levará??? Sem noção. Pode ser uma vida inteira???? Pode. Nada a fazer, a não ser tentar impedir que esse amor que ela sente se contamine com ciúmes, raiva, inveja, que precisa dominar. Por isso ela se afastou. Não por você ou por sua causa, mas por ele, para mantê-lo vivo. O amor. Sempre ele. É assim que ela é. Acerta errando. Mas dessa vez ela sabe que vai ter que aprender a contar com a sua própria companhia. Até quando, isso você pode responder.

Sem mais,

.


P. S.: não, ela não é um pingo, é o seu ponto, e vírgula, de exclamação, de interrogação, os dois, e todos juntos. E o final também.

terça-feira, 26 de abril de 2011